Perna Longa

Perna Longa
Por Jack Sawyer

Jonas sempre foi impetuoso, corajoso, mancebo valentão.
Sempre batia no peito dizendo “eu isso”, “eu aquilo”.
Morava em um sitio. Ele, os pais e os irmãos. Era meio sertão.
Naquele tempo, não tinha as facilidades que temos hoje. Uma ida ao supermercado, quando possível, era uma verdadeira viagem, a pé e por estrada de terra, ou através de trilhas no meio do mato.
Sempre que saiam, Jonas ia à frente. E é em uma dessas saídas, que se passa nossa historia.
De família católica, todos eles, era sagrado eles irem à igreja todo domingo.
Saiam de casa com a luz do dia. Fim de tarde, na verdade. O crepúsculo, com seu disco dourado a se esconder por detrás dos morros. Como iam pegar trecho de mata, essa claridade não era suficiente para iluminar o caminho, então tinha que recorrer, ocasionalmente, às lanternas.
Jonas, como sempre, ia à frente. Sentia-se como um explorador. Quando chegavam na cidade, ele voltava para o grupo e retomavam o passeio todos juntos.
Chegavam sempre em uma praça, um pouco antes da igreja, para impar os sapatos. Tirar o capim e escovar a poeira que se fixara em suas roupas e calçados. Logo após essa limpeza, se dirigiam para a igreja.
Ao fim da missa, conversavam com algumas pessoas, para colocar “o papo em dia”. Os pais ficavam conversando com o padre, até que, finalmente se despedem.
Chega à hora do cansativo retorno, pois agora era no escuro. Uma noite sem luar. Se afastando das luzes da cidade, a penumbra era total, salvo alguns vaga-lumes, que iam e viam, num balé frenético e aleatório.
Jonas estava lá na frente de todos, logo em seguida seus irmãos, em fila indiana, e por último, seus pais, de mãos dadas, cantando uma música que teimava em permanecer em suas cabeças.
De repente, Jonas percebeu o mato se mexer à sua direita. Parou e ficou olhando no escuro tentando achar algo com a fraca luz da lanterna.
Seus irmãos, logo se aproximaram e um deles perguntou;
- O que foi?
- Nada, acho que não foi nada. Um rato, talvez.
Aproximou-se da moita e, o que é que fosse que estivesse ali, saiu correndo.
- Algum bicho noturno. – falou Jonas, quase para si mesmo.
Continuaram a marcha e ele logo se adiantou dos demais.
Andaram mais alguns quilômetros, e novamente, o mato se mexeu à sua direita.
O irmão mais próximo percebeu a parada e correu para perto de Jonas. Os dois focalizaram com a lanterna, quase ao mesmo tempo, o local do barulho.
O susto foi tremendo, porque era algo que eles não esperavam ver ali. Pelo menos, não àquela hora.
Era um garoto, quase da mesma idade de Jonas, meio pálido, olhos grandes, rosto arredondado. Estava descalço e usava um short escuro.
Ficaram alguns segundos se encarando. De repente, o garoto olha para o morro mais próximo, dava pra ver só o contorno escuro contra o fundo azul escuro do céu.
O garoto levantou a perna direita e a estendeu em direção ao morro. Devia ter uns três quilômetros de distância. Em seguida atirou o corpo na mesma direção e içou a outra perna, até sumir na escuridão.
Jonas, sem olhar para traz, fala com seu irmão.
- Você também viu isso, não viu?
- Vi e não consigo acreditar.
- O que vamos fazer?
- Nada. Nem vamos falar nada. Ninguém acreditaria nisso.
Aguardaram os outros e começaram a andar sempre junto.
Alguns anos mais tarde, comentando com gente mais velha da região, Jonas veio a descobrir que esse menino, quase sempre aparece em locais onde possui alguma fonte de minério ou pedras preciosas.
Mas nunca iremos saber disso, não é mesmo?

Fim.

Este conto foi inspirado numa historia que um amigo, antigo morador do Vale do Ribeira, me contou. Ele garante que foi verdade. Os nomes foram substituídos para protegê-lo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Assalto

Solidão

VINGANÇA DO CORAÇÃO