quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Crueldade

Crueldade

- Vai, vai “mermão”. Anda logo com isso. Passa a grana logo, meu.

- Ca calma...

- Que calma, véio. Anda logo. Tá demorando muito.


Assim começava um assalto a um posto de gasolina de beira de estrada. O meliante era baixo, por volta de 1,60 m. Aparentava ter no máximo 25 anos. Barba rala e o rosto sujo, juntamente com uma touca preta, dificultava a identificação.

O mais impressionante eram os olhos. Eram pequenos e estavam vermelhos. Transmitiam uma maldade, um sadismo difícil de descrever.

Ficou de tocaia ate o momento que o caixa passou para recolher o numerário dos frentistas. Era inicio de feriado prolongado e o posto teve movimento o dia todo.

Estava acabando o turno do caixa e ele, foi recolher o dinheiro para conferência e a guarda do movimento do dia.

O individuo tinha as roupas sujas, a calça larga e suja de barro, estava amarrada com um barbante. Entrou no escritório do posto sem ninguém perceber, parecia um pedinte. Foi quando anunciou o assalto.

Portava um revolver velho, um 38 talvez. Balançava muito os braços enquanto falava, Parecia muito nervoso e alucinado. Talvez estivesse sob o efeito de drogas. Mas o mais impressionante eram os olhos. Eram pequenos e estavam vermelhos. Transmitiam uma maldade, um sadismo difícil de descrever.

Gritava o tempo todo. Pedia dinheiro, não só o que estava nas gavetas mas o que estava no cofre também.

O caixa estava apavorado. Era uma situação inusitada. Já havia ouvido e visto casos semelhantes, mas nunca se acha que vai acontecer, até que aconteça.

O assaltante continuava gritando. O vidro fumê e grosso do escritório, impedia que as pessoas de fora percebessem que estava acontecendo.

O caixa já estava abrindo o cofre, quando o cliente entrou no escritório. O bandido assustou-se com a repentina intromissão e disparou a arma. O cofre já estava aberto quando o projétil deflagrado atingiu a tranca da porta do cofre, que é de puro aço, ricocheteando e atingindo o braço esquerdo do meliante que, apavorado e com dor, sai em disparada, sem levar nada. No caminho bateu com a arma no rosto do fregues.

Correu para trás do posto e se embrenhou no mato. Com muita dor no braço, livrou-se da arma para fazer pressão no ferimento.

Correu por algumas horas no meio do mato, tropeçando e caindo várias vezes.

Alcançara uma vila próximo ao rio. Uma das casas estava com a luz acessa. Aproximou-se e os cães começaram a ladrar. A mulher olhou pelas frestas da janela e viu apenas um homem maltrapilho, sujo e com um pedaço de pano amarrado no braço esquerdo. Parecia ferido, pois segurava o braço contra o peito com a mão direita e uma expressão de dor.

- Ó de casa? Tem alguém aí? Eu estou com fome. Só quero um prato de comida.

A moça ficou olhando, mas pelo jeito ele não sairia dali.

- Eu sei que tem alguém em casa. Só quero um pouco de comida e vou embora.

Ela foi ate a cozinha e pegou o resto de comida que sobrou da janta, comida que ela ia dar aos cachorros no dia seguinte, fez um prato e foi até a porta.

Quando o meliante a viu na porta aberta, percebeu a silhueta de grávida. Devia faltar poucas semanas para o nascimento, devido ao tamanho da barriga.

Ela o chamou para pegar o prato. Ele se aproximou da porta e pegou o prato com o braço bom, sentou-se no degrau e apoiou o prato nos joelhos.

- Não se preocupe moça, não vou demorar.

- Como você se machucou? - perguntou ela.

Ele já tinha colocado três colheradas na boca, quando parou de mastigar. Seus olhos começaram a se injetar de vermelho, a respiração ficou rápida e descompassada. O bandido atirou o prato longe e sem o menor aviso, deu um potente soco na barriga da gestante. Essa, por sua vez, caiu de costas gritando de dor e sentindo contrações.

- Vou te ensinar a não se meter na vida dos outros.

A mulher começou a entrar em trabalho de parto. Tremia e sua barriga mexia muito. Depois de alguns momentos de sofrimento e dor a criança nascera, ou melhor foi arrancada pelo bandido, que até o momento assistia a tudo calmamente, pegou a criança ainda suja, cortou o cordão com uma faca e levou-a até os fundos da casa e atirou-o no rio.

Ficou observando aquele feto se debatendo na água e o rio seguindo seu curso levando o pequeno rebento embora. Ele olhava tudo extasiado dando gargalhadas. Ria muito e sem parar, parecia que estava assistindo a um programa de comédia.


A moça finalmente abre os olhos e percebe que não foi um pesadelo. Foi real e bem real. Está acontecendo agora. Aquele maníaco ainda estava lá, na sua casa e rindo.

Tirando forças não se sabe de onde, movida pelo ódio e pela vingança, ela tenta se levantar. Escorrega no sangue e na água que está a sua volta e tenta novamente. Segue para os fundos, escorando nas paredes e nos móveis. Vai até a área externa, onde o marido guarda as ferramentas.

O maníaco alucinado ainda ria quando sente uma forte dor no braço direito e o vê caindo no chão. Tenta se virar quando se desequilibra e cai sentado, ele para um lado e sua perna esquerda para o outro. Sem entender, vê a mulher próxima a ele, agora com a barriga murcha e um penado na mão. Mal teve tempo de falar, quando ela desferiu outro golpe, agora no lado esquerdo do tronco, na altura do cotovelo. Como ele estava com o braço dobrado e a força do impacto foi tão grande, que cortou o o braço em três partes e ainda enterrou na costela. A ferramenta ficou presa no tronco da vítima.

Não satisfeita com o resultado, a mulher voltou para casa e de lá saiu com uma foice na mão para acabar o serviço.

Vizinhos viram a moça vagando pela rua de noite, com as roupas ensanguentadas e chamaram socorro.

Na ambulância, ela dizia palavras sem nexo. A única coisa que parecia compreensível era:

meu bebê foi embora, meu bebê foi embora”


Jack Sawyer


Esquecimento

Esquecimento.

Enredo de Rita Maria Felix da Silva


Ralph Martel é um escritor famoso, reconhecido internacionalmente pela sua incrível marca de 119 livros publicados. É o escritor com mais livros publicados na atualidade. Suas obras estão entre os mais vendidos no ranking da Veja, Folha de São Paulo e lá fora, no New York Times.

Ganhou o prêmio de escritor do ano pela vigésima vez. Esse é seu outro orgulho, a sala de troféus. A primeira é sua biblioteca particular formada por seus livros que dividia espaço com a sala de troféus.

Em um canto da sala, algo que destoava do ambiente. Era um livro diferente de todos os outros, com capa de couro grosso e fecho com uma tira também de couro travada com uma presa canina.

Estava pousada em uma mini estante para livros toda aveludada. O marcador de páginas do livro, parecia uma orelha com ponta. O livro pulsava levemente como se respirasse. Era o único movimento na sala escura.

Noite fria de sábado em São Paulo. Dentre as dezenas de eventos naquela noite, a mais badalada, pelo menos para os amantes da leitura, era a noite de autógrafos do lançamento do 120o livro de Ralph Martel.


Uma semana atrás...


Ralph raramente aparecia, mas desta vez seria diferente. Queria autografar o máximo de livros possíveis. Por isso organizou tudo nos mínimos detalhes. Escolheu um fim de semana com menos eventos. Um sábado que não tinha nenhum lançamento literário. Convocou a imprensa falada e escrita, fotógrafos. Programou com a editora que o livro teria 80% de desconto se fosse autografado. Isso aumentaria a frequência. Procurou alguns “crackers” e conseguiu que eles enviassem “spans” para milhares de pessoas, falando do livro, do desconto e onde consegui-lo.

Tudo isso, para escapar do trato que fizera quando era jovem.


30 anos atrás...


Ralph ainda era um aspirante a escritor. Um contista que publicava seus contos na internet. Estava cansado da pouca visualização que vinha tendo. Associava-se à vários grupos para divulgar o máximo o seu trabalho, mas só conseguia algumas críticas e um ou outro elogio de algum leitor fiel.

Até que um dia extravasou. Gritou que não era justo, que ele tinha talento, só que ninguém reconhecia. Nesse momento, recebeu um e-mail. Não tinha origem, mas tinha um título chamativo.

Se você se sente frustrado, leia antes de apagar.”

Ficou curioso com o título e resolveu lê-lo. Ali, naquele e-mail, descrevia todo o seu sentimento, sua angústia, sua raiva e sua tristeza. No final, tinha um “link” com um aviso. Se ele quisesse por um fim nisso tudo e ter uma carreira de sucesso como escritor, bastaria ele clicar em “aceitar” no final do contrato.

Sem perder tempo e nem mesmo ler o contrato, aceitou.

No dia seguinte, uma editora desconhecida, entrou em contato com ele. Disse que tinha lido alguns de seus contos e que ele levava jeito. E assim ele ficou como o principal escritor dessa editora.

Todos os seus livros eram sucesso de vendas. Tinha uma média de quatro livros por ano e eles esgotavam no dia do lançamento.


Atualmente... (uma semana atrás)


Enriqueceu, ficou famoso e conhecido. Passou 30 anos de sua vida escrevendo para a mesma editora , a qual nunca vira nenhum integrante. Tudo era resolvido por e-mail ou por correio. Seu pagamento era creditado diretamente em sua conta corrente em espécie e o recibo, enviado por Sedex. Nem lembrava mais do contrato que havia aceito no passado. Até agora.

Havia recebido um e-mail da editora marcando a data de lançamento do seu 120o livro “Será o fim?” e já se preparava para desligar o computador, quando recebeu outro e-mail.

Novamente, sem remetente. Sentiu um frio na barriga e lembrou-se da ultima vez que recebeu um e-mail assim. Apagou-o. Logo em seguida veio outro, e mais outro. Resolveu desligar o computador. Seu celular começou a vibrar, indicando que havia recebido mensagem, “não se esqueça do contrato”. Pager, fax, telefone, palmtop, qualquer equipamento de mensagem em sua casa começou a tocar. A televisão ligou sozinha, e um homem com terno bem alinhado apresentava o programa, a câmera não focalizava seu rosto, somente o tronco. Ele estava em um ambiente, ou pelo menos parecia estar, desolado. Ele abriu o paletó e tirou uma carta enrolada e amarrada com um barbante vermelho. Colocou a carta aberta em frente a câmera, e no close, via-se os dedos vermelhos com unhas bem longas. Lembrou-se das primeiras palavras do contrato. Era o mesmo que ele havia aceito há trinta anos atrás.

Ralph, desta vez, leu todo o contrato. Quando chegou no final, estava em prantos. Só conseguia balbuciar.

Meu Deus, o que que eu fiz?”

Todos os equipamentos pararam de tocar e a televisão, assim como ligou, também desligou. A casa mergulhou no silêncio. Ralph ficou um tempo pensativo, depois começou a agir. Começou a ligar para jornais e “talk shows” concedendo entrevistas.


Hoje...


Muitas pessoas compareceram para a noite de autógrafos. Tiveram que organizar sessões para evitar o tumulto. Como estava ficando tarde, a empresa que organizava o evento, resolveu estender para o dia seguinte, estipulando um novo horário, desta vez mais cedo para dar tempo a todos, o que foi bem aceito.

Estranhamente, no dia seguinte não havia tanta gente assim, não como era esperado. Encerrada as sessões de autógrafos, Ralph correu para casa e foi direto para sua biblioteca. Procurou seu primeiro livro, ainda estava lá, mas quando abriu, só viu páginas em branco. Logo em seguida, o livro esfarelou, virou poeira em suas mãos. Os próximos cinco livros da estante tiveram o mesmo destino. Ralph ligou seu computador e pesquisou seus livros na internet. Não havia referência sobre eles, como se nunca tivessem existido. Procurou pelo seu nome. Antes eram milhares de referências, agora eram algumas centenas apenas. Seu celular tocou novamente. Tinha receio de atender. Quando viu no visor que era da rede globo, resolveu atender. Era a assistente de produção do “Programa do Jô”, cancelando a entrevista. Recebeu mais dois e-mails de cancelamento de entrevista. Um era do “Larry King” e o outro era da “Oprah”.

Seu mundo estava desabando. Toda a sua fama e sucesso estava indo pelo ralo. Ouviu um ruído em sua estante e mais dez livros tinham virado pó e depois até o pó desaparecia. Resolveu dar uma volta. Tinha que ter uma solução. Não podia acabar assim. Enquanto caminhava, um jovem o abordou com um livro na mão.

- Ei! Você não é aquele escritor famoso?

A alegria voltou aos olhos de Ralph.

- Aquele dos filmes? Poderia autografar o meu livro?

Ralph quase assentiu, mas pressentiu algo errado. Pegou o livro já aberto na primeira página branca e perguntou o nome do rapaz.

O garoto, avidamente pegou o livro e foi ler a dedicatória.

- Ralph Martel? Quem é Ralph Martel? Pensei que você fosse o Stephen King. Cada maluco que me aparece.

Saiu irritado, resmungando que tinha estragado o livro, deixando Ralph mais desolado. Estava acontecendo rápido demais.

Voltou para casa e foi direto para sua biblioteca. Mais da metade tinha virado pó.

Precisava fazer algo. Mas o quê? Não havia nada que pudesse ser feito. Toda referencia a seu nome estava desaparecendo, sumindo, evaporando, virando pó.

Lembrou de seus troféus Abriu a porta da divisória que dividia a biblioteca da sala de troféus Eles certamente estariam inteiros, pois eram de metal e vidro.

Ao olhar a estante, seu queixo caiu, literalmente. Só havia metal retorcido e vidro quebrado.

Não havia outra alternativa, a não ser recorrer ao livro. Era a única forma de não ter o mesmo destino de suas obras. Foi até ao canto da sala e tremulo, abriu-o.

Toda a sua vida pareceu-lhe diante de seus olhos. Sua juventude como escritor, sua acensão e seu futuro. Fechou o livro e jogou-o num canto, este incendiou-se no ar espalhando fagulhas nas cortinas que rapidamente incendiaram-se. O fogo espalhou por toda casa. Ralph conseguiu sair somente com as roupas do corpo. Nem ao menos os documentos conseguiu salvar. O incêndio tomou proporções gigantescas. Uma multidão abria caminho para os bombeiros começarem a agir. As investigações e reportagens já estavam no local, indagando aos populares e vizinhos sobre o proprietário da casa e seu paradeiro e se havia sobreviventes.

Estranhamente ninguém se lembrava de nada. Um vizinho da frente chegou a dizer ao repórter, que não se lembrava de ter visto movimento naquela casa, ninguém entrando ou saindo durante muito tempo.


Um mês depois...


Em uma avenida movimentada de São Paulo, um senhor esmolava, ou melhor, trocava poesias por qualquer valor, em frente a um dos bancos que se enfileiravam na avenida.

Um ou outro jogava moedas em um pequeno tapete e em troca, ele dava um pedaço de papel com um poema e agradecia a oferta. Dia após dia, desta mesma forma era sua vida.

Certo dia, um casal com uma criança, uma menina, passaram por ele.

- Papai, papai, dá alguma coisa pra ele.

O pai constrangido com o pedido da filha, enfia a mão no bolso e retira uma nota de vinte reais e entrega para a menina para que entregasse ao pedinte.

- Toma moço. - disse a menina, apesar da barba e o cabelo desgrenhado e grisalho do pedinte.

- Muito obrigado minha querida, pegue uma poesia para você. - disse o velho olhando nos olhos da menina, que por sinal eram bem claros.

- Sabe moço – disse a menina bem baixinho para que os pais não a ouvissem – eu sei quem você é. Posso lhe devolver tudo que você perdeu. Basta que você se curve diante de mim. Nesse momento os olhos da garota ficaram negros e brilhantes.

O velho abriu um largo sorriso. Valeria a pena passar por tudo isso de novo?


Jack Sawyer


quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Caros amigos,

A votação encerrou. Infelizmente não estou entre os cem blogs mais votados na minha categoria. Mas agradeço a cada voto que recebi, a cada leitor e amigo, que acreditou em mim e votou no meu blog. Mas não foi desta vez. Espero haver outras oportunidades como essa. Agradeço também ao site TopBlog, por ter me convidado e ter me dado tanta visibilidade.

A todos, o meu MUITO OBRIGADO.

Jack Sawyer

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Como palco, o parque

Era mais um dia de trabalho duro. Vida sofrida, dura e perigosa essa. Correndo risco a cada metro percorrido em uma das cidades mais populosas do mundo. Muitos carros, motos e até caminhões disputando o mesmo espaço. Discussões, acidentes e mortes. Assim era o dia de Dionésio. Passava o dia na rua. Uma entrega aqui, outra ali e o mais rápido possível. Quanto antes voltasse para a empresa, mas serviço pegava e mais dinheiro ganhava. Não era tanto assim. Mas dava pra comer e pagar a prestação da moto.
Estava no meio do trânsito, em plena segunda-feira, quando viu uma moça na calçada. Aquele vislumbre entre uma manobra e outra entre os carros. Virou na próxima rua, contornou o quarteirão e parou ao lado da moça. Se apresentou a ela como fotógrafo e perguntou se ela tinha interesse em ganhar algum dinheiro com fotos. A moça achou estranha a pergunta e tentou escapar. Ele com a voz suave disse que era para uma campanha de conscientização ecológica. As fotos seriam tiradas em um parque e ao natural, do jeito que ela estava vestida.
A garota se animou. Afinal estava precisando de uma grana.
Para dar mais ênfase ao que estava falando, Dionésio mostrou um envelope pardo, bem recheado e lacrado. Foi o suficiente para convencer a garota a subir em sua moto e saírem em direção ao Parque do Estado.
À tarde, Dionésio estava de volta à empresa. Antes de entrar no prédio, tirou o envelope pardo de dentro da jaqueta e jogou na lixeira.
Uns garotos que ficavam na frente do prédio, viram o motoboy se desfazendo do embrulho e correram para pegar, disputando entre si. Um dos meninos pega o envelope e sai correndo vitorioso.
Ao abrir, encontra um monte de jornal, cortado de forma retangular, amarrado com vários elásticos.
Dentro do prédio, Dionésio pensava em como era fácil enganá-las.bastava dizer o que elas queriam ouvir. Falar tranqüilamente e pronto.
Com essa, já são nove mulheres.
Amanhã é outro dia. Mais um dia de trabalho duro.


Por Jack Sawyer

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A fuga

As batidas na porta da sala não paravam. Vinicius tentava tapar os ouvidos, mas não conseguir impedir. O som dos socos e pontapés que seu pai dava na porta da sala, não paravam. Nilza, mãe de Vinicius queria impedir que Avelino entrasse em casa. Estava bêbado novamente. E como sempre nervoso. Avelino era um homem forte, trabalhava como “chapa”1 desde que perdeu o emprego, há mais ou menos um ano, e o pouco que conseguia durante o dia, bebia tudo e mais um pouco, no bar do seu Juvêncio, que ficava na esquina.
Nilza se virava, vendendo salgadinhos e doces na rua. Vinicius a ajudava sempre que podia, quando voltava da escola.
“Que saudades do antigo Avelino”, dona Nilza sempre falava isso. Na época que ele não bebia e não batia nela. Era uma boa pessoa. Mas agora, bastava beber para se transformar em outra pessoa. Um animal.
Lá fora, largou a esteira de impropérios contra sua esposa e às vezes, contra o seu filho e contra qualquer um que se metesse em seu caminho. Os vizinhos, incomodados com a gritaria, começaram a acender as luzes e alguns até se atreviam a abrir a janela. Avelino gritava e esbravejava, dizendo que não era da conta deles e chegou até a jogar uma garrafa contra uma das casas.
Avelino consegue arrombar a porta e vai direto para o quarto. Encontra sua esposa sentada sobre a cama com a cabeça baixa.
- Ô sua desssgraxada, não me ouviu batendo na porrrrta não? - Disse Avelino, com a voz arrastando como se sua língua estivesse inchada.
Nilza não respondeu e continuou com a cabeça baixa.
- Ô sua desssgraxada, tá ficando surda?
- Eu ouvi sim e toda a vizinhança também.
Diante de tal resposta, Avelino esticou o braço esquerdo e deu um sonoro tapa em Nilza.
- Sabia que tem lei contra isso? Um dia eu fujo daqui.
- Tá pessssando que xou algum gnorante? Eu sei desssa lei da Maria de “não sei o quê”. E isprimenta fugi pro se vê se num te acho e te trago pelos cabelo. – dizendo isso Avelino deu um soco em Nilza, jogando-a para o chão. Ela bateu a cabeça no guarda roupa e desmaiou. Avelino, mal se agüentando em pé, tombou na cama e adormeceu também.
No meio da noite Nilza acorda. Tudo doía. Tinha um hematoma na cabeça, resultado da batida no guarda roupa. O lábio estava inchado e partido e estava sangrando pelo nariz, devido ao soco que levara. Todo o seu braço esquerdo e sua camisola estavam manchados de sangue. Ficou sem entender. Não podia ser o dela, pois já estava seco. Tentou se levantar e sua visão escureceu acompanhada de uma forte dor de cabeça. Quando as imagens começaram a ficar clara, viu seu marido jogado sobre a cama e o sangue pingando na lateral. Viu seu filho num canto do quarto com uma faca manchada de sangue na mão.
- Filho, o que você fez? – Disse Nilza desesperada correndo de encontro com o menino.
- Eu escutei ele gritando com você mamãe. Ele te machucou. Depois eu vi você cair e pensei que ele tinha matado você, então eu matei ele. Desculpa mamãe. – Vinicius começou a chorar e Nilza o abraçou forte.
- Venha meu filho. Temos que fugir.

Fim

1-chapa.: Trabalhador autônomo

Alguns detalhes interessantes que descobri enquanto escrevia esse texto.

A CADA 15 SEGUNDOS uma mulher é espancada. A cada nove segundos uma mulher é ofendida na conduta sexual. Também a cada nove segundos uma mulher é desmoralizada no trabalho doméstico ou remunerado. Mulheres negras têm mais chances de serem estupradas que as mulheres brancas.
A lei citada no texto é a Lei Maria da Penha. Ela foi sancionada pelo presidente da república no dia 07 de agosto de 2006, a lei é a 11.340/06.
Mais detalhes no site: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_maria_da_penha


por Jack Sawyer

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Uma noite inesquecível.

Sidnei estava sonolento e com frio, brigava para manter os olhos abertos e a consciência, mas era difícil. Sua cabeça doía muito, mais ainda quando tentava abrir os olhos. Pensou ouvir batidas. Parecia que estava em sua casa. Não agüentando mais, voltou aos braços de Morpheu, mergulhando na inconsciência.

3 meses atrás

Sidnei Tesla era um empresário de sucesso, mas gostava de “curtir” a vida. Estava sempre nos eventos e nas baladas. Solteiro, dificilmente voltava para casa sem companhia. Era alto, forte e gostava de cuidar do corpo e da saúde. Freqüentava academia todo dia e tinha uma alimentação regrada. Com 32 anos, gozava de perfeita saúde e fazia checkup periodicamente.
Nos fins de semana, freqüentava as mais badaladas danceterias e boates da cidade.

2 meses atrás

Houve uma noite se sábado, em que ele ficou no bar e conheceu uma loira de grandes atributos físicos que não vale a pena relatar aqui. Enfim, ela recusou seu convite para sair, apesar de sua insistência. Naquela noite ele retornou para casa sozinho.
Passou a freqüentar aquele mesmo lugar. Estava obcecado pela loira, que sempre se esquivava dele.

1 mês atrás

Um mês depois, havia descoberto o nome dela. Era Vanessa, mas foi só isso. Ela se mostrou muito reticente e era difícil extrair alguma informação pessoal dela.
Essa espera o estava matando, mas a vontade da conquista era maior, e ela, era um furo em seu orgulho.
Na semana seguinte, descobrira que ela era enfermeira e passaram a se encontrar sempre, todo fim de semana, na mesma danceteria.
Em um desses encontros, ela finalmente cedeu e resolveu acompanhá-lo até seu apartamento.
Passaram a noite conversando, e ela o tempo todo repelindo suas investidas. Saiu no dia seguinte deixando um bilhete sem telefone, apenas escrito:
“no mesmo lugar de sempre”

Ontem – sábado

Encontraram-se novamente. Abraços, beijos e caricias já era comum entre eles. Vanessa sussurrou em seu ouvido que essa noite seria diferente. Ela o iria recompensar por tanta paciência e insistência.
Em um momento que Vanessa se ausentou para retocar a maquiagem, Sidnei ligou para o porteiro de seu prédio e pediu que providenciasse champanhe e flores e deixasse em seu apartamento e não o perturbasse até segunda-feira. O porteiro respondeu com um risinho e disse que proveria tudo e que ele não precisava se preocupar.
Quando chegaram no apartamento de Sidnei, os dois foram direto para o quarto. Vanessa percebeu o champanhe e o arranjo floral por todo o quarto.
- Que convencido! Já sabia que seria hoje? – disse ela com um sorriso malicioso.
- Nada disso. Apenas fiz alguns contatos antes de virmos. Gostou?
- Pois eu prometo a você que essa noite será inesquecível. – exclamou a loira já preparando duas taças.
Sidnei estava tão inebriado com o momento, que não percebeu que sua taça borbulhava mais que a dela.
Vanessa já estava em trajes mínimos e fazia uma dança sensual na frente de Sidnei.
A dança o estava deixando tonto, ou seria a bebida? Sidnei não sabia, não entendia o que estava acontecendo, parecia que tudo estava de movendo devagar. Vanessa, percebendo o efeito da droga na bebida colocou o pé no peito de Sidnei e o empurrou para trás. Sidnei com um sorriso bobo cai na cama adormece.

Manhã de terça-feira

Cícero, preocupado com o morador do 618 não ter aparecido durante a segunda-feira, e após chamar várias vezes pelo Sr. Sidnei sem obter resposta. Resolveu chamar a policia. Tinha se arrependido de ter jogado a chave por baixo da porta.
A policia chega e após chamar várias vezes pelo morador, decide invadir o apartamento. Tudo estava no lugar. Encontraram o senhor Sidnei no banheiro, deitado em uma banheira com gelo manchado de sangue. Ainda respirava. Havia uma banqueta ao seu lado com um telefone celular.
Em uma análise rápida, os peritos disseram que haviam removido os rins dele cirurgicamente. Tudo indicava que o senhor Sidnei Tesla tinha sido vítima de um ladrão de órgãos.

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por Jack Sawyer
jack.sawyer@itelefonica.com.br
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sexta-feira, 19 de junho de 2009

O dia em que salvei a Terra













O dia em salvei a Terra

por Jack Sawyer
jack.sawyer@itelefonica.com.br
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Eu já contei a vocês como salvei a Terra?

Ano 1908 – 07:05 am

Sórem segura o manche firmemente. Acabara de entrar na atmosfera terrestre. Voava a baixa altitude. Não queria que sua missão acabasse antes mesmo de começar. Apesar de usar um moderno caça de reconhecimento, que era praticamente invisível para os equipamentos desse século, ainda poderiam ser visto por alguém.
Segundo suas fontes, a região de Tunguska não era deserta como a Sibéria. Havia casas esparsas em meio aos pinheiros e ao redor do lago que leva o mesmo nome.
Olhou novamente o relógio temporal da nave. Estava na data certa, 30/06/1908.
Continuava a segurar o manche firmemente e o dedo polegar sobre o botão amarelo com as letras R.A.P.(1). Apesar da nave ser dotada de piloto automático, ele queria ter certeza de que apertaria o botão no momento certo.
O medo de não ter sucesso na missão o preocupava. Não tinha medo de morrer, mas das vidas que dependiam desta missão.
Isto o fez pensar em seus amigos e familiares, conseqüentemente uma torrente de lembranças e memórias o invadiu.

Ano 3500.

Preston ditava ordens aos oficiais rebeldes do pelotão de defesa da antiga Terra. Alguns milhares de sobreviventes que defendiam o que sobrara do planeta terra. Um ambiente devastado, cheio de crateras, quase seco, com inúmeros desertos, onde outrora havia o que chamavam de oceanos. Somente nas áreas mais profundas ainda havia água. Lá era o território dos iguanóides. Seres que um dia foram humanos, mas que, com a primeira inundação passaram a viver na água e na terra. Isso aconteceu depois do primeiro impacto de um meteoro que atingiu a terra em 1908 que, alem de tirar o planeta alguns graus de sua elipse, provocou também um aumento nos oceanos e redução da temperatura global com o bloqueio do sol causado pela nuvem de poeira em conseqüência do impacto.
Cem anos se passaram e o planeta fora novamente atingido por um asteróide em 2012. Aqueles míseros graus de deslocamento em 1908 foram o suficiente para colocar o planeta em rota de colisão.
O primeiro a ser atingido foi o nosso satélite natural, a Lua, o que aliviou o impacto desviando o asteróide para o oceano. Tsunamis e maremotos se seguiram nesta seqüência trágica de catástrofes naturais desencadeadas por um único elemento.
A maior parte do que sobrou da população conseguiu migrar para outros planetas, como Marte, por exemplo, que havia sido colonizado posteriormente ao primeiro impacto.
Após a criação de um posto avançado em Marte, foi instalado um portal transmissor-receptor remotamente, por meio de robôs. Após a instalação, o teste foi um sucesso, trazendo de volta a Terra os robôs de Marte.
Por meio deste portal, foi possível transportar equipamentos, mantimentos e pessoal para Marte. Também foi possível, na hora necessária, evacuar um grande número de pessoas, quando a situação se agravou.
Os cientistas decidiram que a única forma de evitarem o fim seria mudando o passado. Baseado na tecnologia do portal conseguiram criar uma maquina do tempo, apenas mudando a freqüência de entrada e saída.
Vários eventos foram alterados no passado, mas nada mudava no presente.
O retorno para o seu tempo era programado pelo dispositivo R.A.P., normalmente preso ao pulso, que possibilitava o regresso do viajante sem a necessidade de localizar o portal.

1908 – 07:12 am

De volta de seus pensamentos, Sórem começa os preparativos para o impacto. Ligou no painel a chave que ativa o botão R.A.P. adaptado na nave.
Ligou a chave uma, duas, três vezes. O botão do manche não acendia. Refez toda a checagem de instrumentos, tudo funcionando menos o botão R.A.P.

1908 – 07:14 am

Já tinha contato visual com a rocha que despencava do céu. O pânico tomava conta de Sórem, que tinha menos de um minuto para pensar em uma alternativa. Ajustou a autodestruição da nave para o momento do impacto.
Lamentou não poder rever seus amigos e familiares. Agora Sórem está preso neste século com a missão de salvar o planeta. Já podia sentir o calor do imenso petardo rochoso que se consumia em chamas com o atrito com a atmosfera rica em oxigênio da Terra.

1908 – 07:15 am

A autodestruição da nave de Sórem ocorreu no mesmo instante do impacto com o bólido rochoso a aproximadamente 10 km da superfície terrestre. A onda de impacto e calor gerado foi equivalente a 1000 bombas semelhantes à lançada em Hiroshima, devastando toda a região do lago Baikal. A potência foi o equivalente a 10 megatons derrubando 80 milhões de árvores em uma área 2150 quilômetros quadrados. A autodestruição da nave criou um pequeno buraco negro sugando todos os fragmentos, tanto da nave quanto da rocha, para que a ação de voltar no tempo não tivesse repercussões além das propostas para a solução do problema futuro.
Havia outro R.A.P. ligado ao computador central da nave, que estava programado para retorno se houvesse alguma avaria na nave. Este estava funcionando e registrou cada momento do vôo de Sórem, inclusive sua última gravação.
- “Digam a todos como salvei o planeta Terra”
... fim da transmissão.
Sórem gostaria de saber que a missão dele foi um sucesso.

Fim

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(1)R.A.P.: Retorno Automático do Piloto.