sábado, 2 de outubro de 2010

AISHA

“Hoje faz três anos que não a vejo, mas ainda sinto sua presença.
Ainda sinto o cheiro adocicado do sangue de Leonishe, o sacerdote da deusa Laykdam, que invadiu nosso mundo em busca de vítimas inocentes para sacrifício.
Ashtar, o planeta de origem de Leonishe, outrora cheio de vida, entrou em colapso com a chegada da deusa Laykdam, que para restabelecer o equilíbrio exigia sacrifícios de sangue cada vez mais numerosos. Com o extermínio dos povos daquele mundo, a Laykdam dotou seus seguidores com poderes metamorfos , tornando-os capazes de se transformaren em dragões. Assim, atravessavam as dimensões e entravam em planetas como bólidos fechados em seus casulos para suportar a viagem, eclodindo assim que encontrassem um ambiente satisfatório.
Como tudo possui seu equilíbrio no universo, do mesmo planeta surgiu Aisha, única sobrevivente de seu clã, que resolveu não obedecer aos desmandos da deusa Laykdam.
Ainda me lembro da longa espada prateada de duas mãos que ela usava. Uma arma única, com fio de um lado e esporas do outro que iam do guarda mão até quase o meio da espada. Sua espaldeira continha dentes e garras de dragão, demonstrando que não era a primeira vez que os enfrentava. Preso à perna, um longo punhal também de prata.
Mas o que me impressionava mesmo eram seus cabelos ruivos, que iam até a cintura emoldurando um belo rosto de olhos verdes e expressões firmes.
Ela manejava a espada com graciosidade e destreza como se fosse uma extensão de seu braço.
Ainda vislumbro o momento em que, no calor da batalha, a espada prateada de Aisha em sua dança mortal, desferiu o golpe no longo pescoço de dragão de Leonishe, decepando-lhe a cabeça.
Tudo isso são lembranças agora, porém ainda vivas em minha mente, tão nítidas como se houvessem acontecido ontem.
Na época não entendi porque, entre milhões de pessoas, algumas com mais coragem e mais força que eu para enfrentar tal situação, logo eu fosse escolhido.
Hoje percebo. Não era a coragem, mas o espírito de coragem. Não era a força física, mas a índole e o espírito livre. Não era a habilidade de guerreiro, mas a serenidade para suportar tudo e não sucumbir à loucura.
Esse foi o meu papel nesta incrível batalha. Para que Aisha viesse para nossa dimensão, era necessário um elo psíquico com alguém do nosso plano dimensional. Eu pude acompanhar tudo, vendo através de seus olhos, sentido através de sua pele e sua carne. Cada lanho em seu corpo, eu sentia como se fosse em mim.
Assim que Leonishe foi derrotado, senti Aisha saindo de meu corpo, saindo de minha consciência... me deixando.
Será que voltarei a vê-la? Não sei. Mas creio que nosso mundo não corre mais risco de invasão.
Será?”
Extraído do diário de Silvio Alex, ano 2144.

Texto: Jack Sawyer
Enredo: Jack Sawyer e Rita Maria Félix

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Buraco Negro

Buraco negro


- Sérgio! Tire dez cópias deste relatório. E é para ontem.
“Tudo é para ontem” - pensou Sérgio - “pegaram o formulário agora e já querem para ontem.”
A grande copiadora ficava no terceiro andar. Ele agora estava no térreo. Passou pela máquina de café pegou um copo da bebida quente e seguiu para as escadas. Seria péssima ideia ir pelo elevador que vivia sempre lotado, algum engomadinho poderia esbarrar nele, derrubar o café e ainda culpá-lo por isso. Além do mais, poderia bebericar seu café sossegadamente.
Chegando no terceiro andar, sentou em uma cadeira e descansou um pouco. Depois foi até a maquina de xerox que ficava no fundo de uma sala ampla.
O local foi escolhido pelo espaço e porque a máquina emitia ruídos muito altos.
Sérgio colocou o copo de café vazio em cima da copiadora, posicionou os formulários na traseira da máquina e apertou o botão verde de iniciar.
Nada aconteceu.
Apertou mais uma vez, e de novo, e de novo, e nada.
“Mais essa agora. Só falta esta máquina ter quebrado justo comigo. Ou já estava quebrada e sobrou para mim.” - pensou Sérgio, já desolado.
Tentou mais uma vez o botão iniciar. Desta vez ela começou a emitir seus cliques e zumbidos característicos de que estava funcionando.
Sérgio passou as costas da mão sobre a testa, não para enxugar o suor pois a sala era refrigerada, mas em sinal de alivio.
Após os zumbidos, uma única folha saiu da máquina. Parecia que a copiadora estava vazando, pois a única folha que saiu tinha uma mancha enorme e preta de forma circular ocupando quase toda a pagina. Tirou a folha e colocou em cima da máquina, ao lado do copo e apertou o botão verde novamente. Logo as copias começaram a sair. Tomou o resto de café já frio e colocou o copo em cima da folha.
A copiadora cuspiu a ultima folha. Tinha que deixar a sala como a encontrou. Pegou os originais e prendeu-os com um clipe de papel, juntou todas as copias e quando foi pegar o copo para jogar no lixo ele havia desaparecido. Procurou pelo chão e nada
Olhou com cuidado e espantado para a fotocópia negra, aproximando-se aos poucos. Primeiro tocou com cuidado a superfície negra e lisa. Não havia nada lá, seus dedos tocaram o vazio. Recolheu a mão rapidamente e tocou novamente, agora com mais segurança, enfiando a mão toda através do desenho. Aquilo era irreal, impossível e inimaginável. Só havia visto isso nos antigos desenhos do Gato Félix, quando ele tirava de tudo daquela bolsa mágica xadrez, inclusive um buraco falso. Na verdade era isso mesmo que tinha a sua frente. Um buraco falso.
Aprofundou mais a mão e depois o braço. Teoricamente estava colocando a mão dentro da copiadora. Balançando a mão lá dentro, encontrou seu copo. Estava intacto.
Precisava fazer mais um teste. Ainda não cria no que via. Jogou o copo no lixo, pegou as cópias e a folha com o círculo negro e saiu para o corredor. Lá tinha uma máquina de refrigerantes. Correu até o final do corredor e não viu ninguém descendo ou subindo pelas escadas. Observou o elevador e ele estava parado no térreo. Voltou para a máquina de refrigerantes, colocou as cópias no chão e com uma mão segurou a folha na frente da máquina e a outra mão colocou no desenho. Sua mão entrou no desenho, entrando na máquina de refrigerantes até tocar em algo gelado. Puxou com cuidado e no instante seguinte, tinha uma lata de refrigerante geladinha na mão.
Com um sorriso de orelha a orelha de felicidade pensou:
“Isto realmente funciona, finalmente algo de bom aconteceu na minha vida”
Enrolou seu buraco negro portátil e colocou na mochila. Esperou ansiosamente o final do seu expediente. Já era noite quando saiu da empresa. Sua primeira parada seria uma joalheria. Tinha uma grande no centro comercial. Àquela hora as ruas estavam desertas e iluminadas pelas vitrines das lojas. Tirou a folha da mochila e encostou na vitrine na direção do relógio rolex, pegou o relógio e num anel de ouro também.
Estava feliz com o que conseguira hoje, seguiu para casa. Antes passou por uma loja de artigos esportivos e viu um tênis incrível na vitrine e não resistiu, pegou ele também.
No dia seguinte foi trabalhar com seus tênis novos, relógio e anel. Os outros pareciam ter percebido os acessórios berrantes, mas ninguém comentou nada.
E assim continuou a sua vida, sem limites. Tudo que queria ele possuía, desde que estivesse ao alcance de suas mãos.
Começou a aparecer com telefone celular novo, óculos de sol de marca, aparelho de som portátil e mochila descolada. Até que planejou o grande golpe. O cofre da empresa.
Aguardou pacientemente um fim de semana prolongado para executar o golpe.
Chegando a sexta-feira tão esperada, se escondeu no terceiro andar, a sala da copiadora, e esperou que todos saíssem. Como era sexta-feira, todos iam embora cedo.
Assim que todas as luzes se apagaram saiu de seu esconderijo. Destrancou a porta e seguiu pelo corredor até o oitavo andar. A saída da escada do oitavo andar estava trancada, mas isso não era problema. Colocou o buraco negro na porta, enfiou a mão e destrancou-a por dentro. Foi fazendo isso de porta em porta até chegar a sala do cofre.
Com uma fita adesiva prendeu a folha na porta do cofre e começou a retirar maços e mais maços de dinheiro, alguns ele já ia colocando na bolsa, outros ele ia empilhando ao lado do cofre. Havia muito mais, mas não conseguia pegar, sua mão não alcançava. Então tentou algo diferente, tentou passar o corpo pelo buraco falso. Surpreendentemente o buraco alargou aumentando seu tamanho original, o que possibilitou uma passagem para dentro do cofre. Conforme ele ia atravessando pelo buraco, o papel ia balançando movimentando a fita adesiva para os lados. O contato com o metal do cofre não ajudava a aderência, então a pagina caiu e escorregou para baixo do cofre, eliminando a sua rota de fuga, deixando-o sozinho na escuridão.
Sérgio começou a gritar, a pedir por socorro, mas seus gritos soaram abafados quase inaudíveis.
Era para ser o crime perfeito. Sem arrombamentos, sem janelas quebradas e sem marcas. Sérgio só será descoberto na quarta-feira de cinzas. Infelizmente, para ele, seu ar dura até domingo.
Para os demais fica a pergunta. Como uma pessoa jovem entra em um cofre, tira o dinheiro para fora e se tranca lá dentro sem ao menos acionar o alarme?
A resposta, jamais saberão.

Jack Sawyer.
Baseado no curta "The Black Hole"

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Crueldade

Crueldade

- Vai, vai “mermão”. Anda logo com isso. Passa a grana logo, meu.

- Ca calma...

- Que calma, véio. Anda logo. Tá demorando muito.


Assim começava um assalto a um posto de gasolina de beira de estrada. O meliante era baixo, por volta de 1,60 m. Aparentava ter no máximo 25 anos. Barba rala e o rosto sujo, juntamente com uma touca preta, dificultava a identificação.

O mais impressionante eram os olhos. Eram pequenos e estavam vermelhos. Transmitiam uma maldade, um sadismo difícil de descrever.

Ficou de tocaia ate o momento que o caixa passou para recolher o numerário dos frentistas. Era inicio de feriado prolongado e o posto teve movimento o dia todo.

Estava acabando o turno do caixa e ele, foi recolher o dinheiro para conferência e a guarda do movimento do dia.

O individuo tinha as roupas sujas, a calça larga e suja de barro, estava amarrada com um barbante. Entrou no escritório do posto sem ninguém perceber, parecia um pedinte. Foi quando anunciou o assalto.

Portava um revolver velho, um 38 talvez. Balançava muito os braços enquanto falava, Parecia muito nervoso e alucinado. Talvez estivesse sob o efeito de drogas. Mas o mais impressionante eram os olhos. Eram pequenos e estavam vermelhos. Transmitiam uma maldade, um sadismo difícil de descrever.

Gritava o tempo todo. Pedia dinheiro, não só o que estava nas gavetas mas o que estava no cofre também.

O caixa estava apavorado. Era uma situação inusitada. Já havia ouvido e visto casos semelhantes, mas nunca se acha que vai acontecer, até que aconteça.

O assaltante continuava gritando. O vidro fumê e grosso do escritório, impedia que as pessoas de fora percebessem que estava acontecendo.

O caixa já estava abrindo o cofre, quando o cliente entrou no escritório. O bandido assustou-se com a repentina intromissão e disparou a arma. O cofre já estava aberto quando o projétil deflagrado atingiu a tranca da porta do cofre, que é de puro aço, ricocheteando e atingindo o braço esquerdo do meliante que, apavorado e com dor, sai em disparada, sem levar nada. No caminho bateu com a arma no rosto do fregues.

Correu para trás do posto e se embrenhou no mato. Com muita dor no braço, livrou-se da arma para fazer pressão no ferimento.

Correu por algumas horas no meio do mato, tropeçando e caindo várias vezes.

Alcançara uma vila próximo ao rio. Uma das casas estava com a luz acessa. Aproximou-se e os cães começaram a ladrar. A mulher olhou pelas frestas da janela e viu apenas um homem maltrapilho, sujo e com um pedaço de pano amarrado no braço esquerdo. Parecia ferido, pois segurava o braço contra o peito com a mão direita e uma expressão de dor.

- Ó de casa? Tem alguém aí? Eu estou com fome. Só quero um prato de comida.

A moça ficou olhando, mas pelo jeito ele não sairia dali.

- Eu sei que tem alguém em casa. Só quero um pouco de comida e vou embora.

Ela foi ate a cozinha e pegou o resto de comida que sobrou da janta, comida que ela ia dar aos cachorros no dia seguinte, fez um prato e foi até a porta.

Quando o meliante a viu na porta aberta, percebeu a silhueta de grávida. Devia faltar poucas semanas para o nascimento, devido ao tamanho da barriga.

Ela o chamou para pegar o prato. Ele se aproximou da porta e pegou o prato com o braço bom, sentou-se no degrau e apoiou o prato nos joelhos.

- Não se preocupe moça, não vou demorar.

- Como você se machucou? - perguntou ela.

Ele já tinha colocado três colheradas na boca, quando parou de mastigar. Seus olhos começaram a se injetar de vermelho, a respiração ficou rápida e descompassada. O bandido atirou o prato longe e sem o menor aviso, deu um potente soco na barriga da gestante. Essa, por sua vez, caiu de costas gritando de dor e sentindo contrações.

- Vou te ensinar a não se meter na vida dos outros.

A mulher começou a entrar em trabalho de parto. Tremia e sua barriga mexia muito. Depois de alguns momentos de sofrimento e dor a criança nascera, ou melhor foi arrancada pelo bandido, que até o momento assistia a tudo calmamente, pegou a criança ainda suja, cortou o cordão com uma faca e levou-a até os fundos da casa e atirou-o no rio.

Ficou observando aquele feto se debatendo na água e o rio seguindo seu curso levando o pequeno rebento embora. Ele olhava tudo extasiado dando gargalhadas. Ria muito e sem parar, parecia que estava assistindo a um programa de comédia.


A moça finalmente abre os olhos e percebe que não foi um pesadelo. Foi real e bem real. Está acontecendo agora. Aquele maníaco ainda estava lá, na sua casa e rindo.

Tirando forças não se sabe de onde, movida pelo ódio e pela vingança, ela tenta se levantar. Escorrega no sangue e na água que está a sua volta e tenta novamente. Segue para os fundos, escorando nas paredes e nos móveis. Vai até a área externa, onde o marido guarda as ferramentas.

O maníaco alucinado ainda ria quando sente uma forte dor no braço direito e o vê caindo no chão. Tenta se virar quando se desequilibra e cai sentado, ele para um lado e sua perna esquerda para o outro. Sem entender, vê a mulher próxima a ele, agora com a barriga murcha e um penado na mão. Mal teve tempo de falar, quando ela desferiu outro golpe, agora no lado esquerdo do tronco, na altura do cotovelo. Como ele estava com o braço dobrado e a força do impacto foi tão grande, que cortou o o braço em três partes e ainda enterrou na costela. A ferramenta ficou presa no tronco da vítima.

Não satisfeita com o resultado, a mulher voltou para casa e de lá saiu com uma foice na mão para acabar o serviço.

Vizinhos viram a moça vagando pela rua de noite, com as roupas ensanguentadas e chamaram socorro.

Na ambulância, ela dizia palavras sem nexo. A única coisa que parecia compreensível era:

meu bebê foi embora, meu bebê foi embora”


Jack Sawyer


Esquecimento

Esquecimento.

Enredo de Rita Maria Felix da Silva


Ralph Martel é um escritor famoso, reconhecido internacionalmente pela sua incrível marca de 119 livros publicados. É o escritor com mais livros publicados na atualidade. Suas obras estão entre os mais vendidos no ranking da Veja, Folha de São Paulo e lá fora, no New York Times.

Ganhou o prêmio de escritor do ano pela vigésima vez. Esse é seu outro orgulho, a sala de troféus. A primeira é sua biblioteca particular formada por seus livros que dividia espaço com a sala de troféus.

Em um canto da sala, algo que destoava do ambiente. Era um livro diferente de todos os outros, com capa de couro grosso e fecho com uma tira também de couro travada com uma presa canina.

Estava pousada em uma mini estante para livros toda aveludada. O marcador de páginas do livro, parecia uma orelha com ponta. O livro pulsava levemente como se respirasse. Era o único movimento na sala escura.

Noite fria de sábado em São Paulo. Dentre as dezenas de eventos naquela noite, a mais badalada, pelo menos para os amantes da leitura, era a noite de autógrafos do lançamento do 120o livro de Ralph Martel.


Uma semana atrás...


Ralph raramente aparecia, mas desta vez seria diferente. Queria autografar o máximo de livros possíveis. Por isso organizou tudo nos mínimos detalhes. Escolheu um fim de semana com menos eventos. Um sábado que não tinha nenhum lançamento literário. Convocou a imprensa falada e escrita, fotógrafos. Programou com a editora que o livro teria 80% de desconto se fosse autografado. Isso aumentaria a frequência. Procurou alguns “crackers” e conseguiu que eles enviassem “spans” para milhares de pessoas, falando do livro, do desconto e onde consegui-lo.

Tudo isso, para escapar do trato que fizera quando era jovem.


30 anos atrás...


Ralph ainda era um aspirante a escritor. Um contista que publicava seus contos na internet. Estava cansado da pouca visualização que vinha tendo. Associava-se à vários grupos para divulgar o máximo o seu trabalho, mas só conseguia algumas críticas e um ou outro elogio de algum leitor fiel.

Até que um dia extravasou. Gritou que não era justo, que ele tinha talento, só que ninguém reconhecia. Nesse momento, recebeu um e-mail. Não tinha origem, mas tinha um título chamativo.

Se você se sente frustrado, leia antes de apagar.”

Ficou curioso com o título e resolveu lê-lo. Ali, naquele e-mail, descrevia todo o seu sentimento, sua angústia, sua raiva e sua tristeza. No final, tinha um “link” com um aviso. Se ele quisesse por um fim nisso tudo e ter uma carreira de sucesso como escritor, bastaria ele clicar em “aceitar” no final do contrato.

Sem perder tempo e nem mesmo ler o contrato, aceitou.

No dia seguinte, uma editora desconhecida, entrou em contato com ele. Disse que tinha lido alguns de seus contos e que ele levava jeito. E assim ele ficou como o principal escritor dessa editora.

Todos os seus livros eram sucesso de vendas. Tinha uma média de quatro livros por ano e eles esgotavam no dia do lançamento.


Atualmente... (uma semana atrás)


Enriqueceu, ficou famoso e conhecido. Passou 30 anos de sua vida escrevendo para a mesma editora , a qual nunca vira nenhum integrante. Tudo era resolvido por e-mail ou por correio. Seu pagamento era creditado diretamente em sua conta corrente em espécie e o recibo, enviado por Sedex. Nem lembrava mais do contrato que havia aceito no passado. Até agora.

Havia recebido um e-mail da editora marcando a data de lançamento do seu 120o livro “Será o fim?” e já se preparava para desligar o computador, quando recebeu outro e-mail.

Novamente, sem remetente. Sentiu um frio na barriga e lembrou-se da ultima vez que recebeu um e-mail assim. Apagou-o. Logo em seguida veio outro, e mais outro. Resolveu desligar o computador. Seu celular começou a vibrar, indicando que havia recebido mensagem, “não se esqueça do contrato”. Pager, fax, telefone, palmtop, qualquer equipamento de mensagem em sua casa começou a tocar. A televisão ligou sozinha, e um homem com terno bem alinhado apresentava o programa, a câmera não focalizava seu rosto, somente o tronco. Ele estava em um ambiente, ou pelo menos parecia estar, desolado. Ele abriu o paletó e tirou uma carta enrolada e amarrada com um barbante vermelho. Colocou a carta aberta em frente a câmera, e no close, via-se os dedos vermelhos com unhas bem longas. Lembrou-se das primeiras palavras do contrato. Era o mesmo que ele havia aceito há trinta anos atrás.

Ralph, desta vez, leu todo o contrato. Quando chegou no final, estava em prantos. Só conseguia balbuciar.

Meu Deus, o que que eu fiz?”

Todos os equipamentos pararam de tocar e a televisão, assim como ligou, também desligou. A casa mergulhou no silêncio. Ralph ficou um tempo pensativo, depois começou a agir. Começou a ligar para jornais e “talk shows” concedendo entrevistas.


Hoje...


Muitas pessoas compareceram para a noite de autógrafos. Tiveram que organizar sessões para evitar o tumulto. Como estava ficando tarde, a empresa que organizava o evento, resolveu estender para o dia seguinte, estipulando um novo horário, desta vez mais cedo para dar tempo a todos, o que foi bem aceito.

Estranhamente, no dia seguinte não havia tanta gente assim, não como era esperado. Encerrada as sessões de autógrafos, Ralph correu para casa e foi direto para sua biblioteca. Procurou seu primeiro livro, ainda estava lá, mas quando abriu, só viu páginas em branco. Logo em seguida, o livro esfarelou, virou poeira em suas mãos. Os próximos cinco livros da estante tiveram o mesmo destino. Ralph ligou seu computador e pesquisou seus livros na internet. Não havia referência sobre eles, como se nunca tivessem existido. Procurou pelo seu nome. Antes eram milhares de referências, agora eram algumas centenas apenas. Seu celular tocou novamente. Tinha receio de atender. Quando viu no visor que era da rede globo, resolveu atender. Era a assistente de produção do “Programa do Jô”, cancelando a entrevista. Recebeu mais dois e-mails de cancelamento de entrevista. Um era do “Larry King” e o outro era da “Oprah”.

Seu mundo estava desabando. Toda a sua fama e sucesso estava indo pelo ralo. Ouviu um ruído em sua estante e mais dez livros tinham virado pó e depois até o pó desaparecia. Resolveu dar uma volta. Tinha que ter uma solução. Não podia acabar assim. Enquanto caminhava, um jovem o abordou com um livro na mão.

- Ei! Você não é aquele escritor famoso?

A alegria voltou aos olhos de Ralph.

- Aquele dos filmes? Poderia autografar o meu livro?

Ralph quase assentiu, mas pressentiu algo errado. Pegou o livro já aberto na primeira página branca e perguntou o nome do rapaz.

O garoto, avidamente pegou o livro e foi ler a dedicatória.

- Ralph Martel? Quem é Ralph Martel? Pensei que você fosse o Stephen King. Cada maluco que me aparece.

Saiu irritado, resmungando que tinha estragado o livro, deixando Ralph mais desolado. Estava acontecendo rápido demais.

Voltou para casa e foi direto para sua biblioteca. Mais da metade tinha virado pó.

Precisava fazer algo. Mas o quê? Não havia nada que pudesse ser feito. Toda referencia a seu nome estava desaparecendo, sumindo, evaporando, virando pó.

Lembrou de seus troféus Abriu a porta da divisória que dividia a biblioteca da sala de troféus Eles certamente estariam inteiros, pois eram de metal e vidro.

Ao olhar a estante, seu queixo caiu, literalmente. Só havia metal retorcido e vidro quebrado.

Não havia outra alternativa, a não ser recorrer ao livro. Era a única forma de não ter o mesmo destino de suas obras. Foi até ao canto da sala e tremulo, abriu-o.

Toda a sua vida pareceu-lhe diante de seus olhos. Sua juventude como escritor, sua acensão e seu futuro. Fechou o livro e jogou-o num canto, este incendiou-se no ar espalhando fagulhas nas cortinas que rapidamente incendiaram-se. O fogo espalhou por toda casa. Ralph conseguiu sair somente com as roupas do corpo. Nem ao menos os documentos conseguiu salvar. O incêndio tomou proporções gigantescas. Uma multidão abria caminho para os bombeiros começarem a agir. As investigações e reportagens já estavam no local, indagando aos populares e vizinhos sobre o proprietário da casa e seu paradeiro e se havia sobreviventes.

Estranhamente ninguém se lembrava de nada. Um vizinho da frente chegou a dizer ao repórter, que não se lembrava de ter visto movimento naquela casa, ninguém entrando ou saindo durante muito tempo.


Um mês depois...


Em uma avenida movimentada de São Paulo, um senhor esmolava, ou melhor, trocava poesias por qualquer valor, em frente a um dos bancos que se enfileiravam na avenida.

Um ou outro jogava moedas em um pequeno tapete e em troca, ele dava um pedaço de papel com um poema e agradecia a oferta. Dia após dia, desta mesma forma era sua vida.

Certo dia, um casal com uma criança, uma menina, passaram por ele.

- Papai, papai, dá alguma coisa pra ele.

O pai constrangido com o pedido da filha, enfia a mão no bolso e retira uma nota de vinte reais e entrega para a menina para que entregasse ao pedinte.

- Toma moço. - disse a menina, apesar da barba e o cabelo desgrenhado e grisalho do pedinte.

- Muito obrigado minha querida, pegue uma poesia para você. - disse o velho olhando nos olhos da menina, que por sinal eram bem claros.

- Sabe moço – disse a menina bem baixinho para que os pais não a ouvissem – eu sei quem você é. Posso lhe devolver tudo que você perdeu. Basta que você se curve diante de mim. Nesse momento os olhos da garota ficaram negros e brilhantes.

O velho abriu um largo sorriso. Valeria a pena passar por tudo isso de novo?


Jack Sawyer


quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Caros amigos,

A votação encerrou. Infelizmente não estou entre os cem blogs mais votados na minha categoria. Mas agradeço a cada voto que recebi, a cada leitor e amigo, que acreditou em mim e votou no meu blog. Mas não foi desta vez. Espero haver outras oportunidades como essa. Agradeço também ao site TopBlog, por ter me convidado e ter me dado tanta visibilidade.

A todos, o meu MUITO OBRIGADO.

Jack Sawyer

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Como palco, o parque

Era mais um dia de trabalho duro. Vida sofrida, dura e perigosa essa. Correndo risco a cada metro percorrido em uma das cidades mais populosas do mundo. Muitos carros, motos e até caminhões disputando o mesmo espaço. Discussões, acidentes e mortes. Assim era o dia de Dionésio. Passava o dia na rua. Uma entrega aqui, outra ali e o mais rápido possível. Quanto antes voltasse para a empresa, mas serviço pegava e mais dinheiro ganhava. Não era tanto assim. Mas dava pra comer e pagar a prestação da moto.
Estava no meio do trânsito, em plena segunda-feira, quando viu uma moça na calçada. Aquele vislumbre entre uma manobra e outra entre os carros. Virou na próxima rua, contornou o quarteirão e parou ao lado da moça. Se apresentou a ela como fotógrafo e perguntou se ela tinha interesse em ganhar algum dinheiro com fotos. A moça achou estranha a pergunta e tentou escapar. Ele com a voz suave disse que era para uma campanha de conscientização ecológica. As fotos seriam tiradas em um parque e ao natural, do jeito que ela estava vestida.
A garota se animou. Afinal estava precisando de uma grana.
Para dar mais ênfase ao que estava falando, Dionésio mostrou um envelope pardo, bem recheado e lacrado. Foi o suficiente para convencer a garota a subir em sua moto e saírem em direção ao Parque do Estado.
À tarde, Dionésio estava de volta à empresa. Antes de entrar no prédio, tirou o envelope pardo de dentro da jaqueta e jogou na lixeira.
Uns garotos que ficavam na frente do prédio, viram o motoboy se desfazendo do embrulho e correram para pegar, disputando entre si. Um dos meninos pega o envelope e sai correndo vitorioso.
Ao abrir, encontra um monte de jornal, cortado de forma retangular, amarrado com vários elásticos.
Dentro do prédio, Dionésio pensava em como era fácil enganá-las.bastava dizer o que elas queriam ouvir. Falar tranqüilamente e pronto.
Com essa, já são nove mulheres.
Amanhã é outro dia. Mais um dia de trabalho duro.


Por Jack Sawyer

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A fuga

As batidas na porta da sala não paravam. Vinicius tentava tapar os ouvidos, mas não conseguir impedir. O som dos socos e pontapés que seu pai dava na porta da sala, não paravam. Nilza, mãe de Vinicius queria impedir que Avelino entrasse em casa. Estava bêbado novamente. E como sempre nervoso. Avelino era um homem forte, trabalhava como “chapa”1 desde que perdeu o emprego, há mais ou menos um ano, e o pouco que conseguia durante o dia, bebia tudo e mais um pouco, no bar do seu Juvêncio, que ficava na esquina.
Nilza se virava, vendendo salgadinhos e doces na rua. Vinicius a ajudava sempre que podia, quando voltava da escola.
“Que saudades do antigo Avelino”, dona Nilza sempre falava isso. Na época que ele não bebia e não batia nela. Era uma boa pessoa. Mas agora, bastava beber para se transformar em outra pessoa. Um animal.
Lá fora, largou a esteira de impropérios contra sua esposa e às vezes, contra o seu filho e contra qualquer um que se metesse em seu caminho. Os vizinhos, incomodados com a gritaria, começaram a acender as luzes e alguns até se atreviam a abrir a janela. Avelino gritava e esbravejava, dizendo que não era da conta deles e chegou até a jogar uma garrafa contra uma das casas.
Avelino consegue arrombar a porta e vai direto para o quarto. Encontra sua esposa sentada sobre a cama com a cabeça baixa.
- Ô sua desssgraxada, não me ouviu batendo na porrrrta não? - Disse Avelino, com a voz arrastando como se sua língua estivesse inchada.
Nilza não respondeu e continuou com a cabeça baixa.
- Ô sua desssgraxada, tá ficando surda?
- Eu ouvi sim e toda a vizinhança também.
Diante de tal resposta, Avelino esticou o braço esquerdo e deu um sonoro tapa em Nilza.
- Sabia que tem lei contra isso? Um dia eu fujo daqui.
- Tá pessssando que xou algum gnorante? Eu sei desssa lei da Maria de “não sei o quê”. E isprimenta fugi pro se vê se num te acho e te trago pelos cabelo. – dizendo isso Avelino deu um soco em Nilza, jogando-a para o chão. Ela bateu a cabeça no guarda roupa e desmaiou. Avelino, mal se agüentando em pé, tombou na cama e adormeceu também.
No meio da noite Nilza acorda. Tudo doía. Tinha um hematoma na cabeça, resultado da batida no guarda roupa. O lábio estava inchado e partido e estava sangrando pelo nariz, devido ao soco que levara. Todo o seu braço esquerdo e sua camisola estavam manchados de sangue. Ficou sem entender. Não podia ser o dela, pois já estava seco. Tentou se levantar e sua visão escureceu acompanhada de uma forte dor de cabeça. Quando as imagens começaram a ficar clara, viu seu marido jogado sobre a cama e o sangue pingando na lateral. Viu seu filho num canto do quarto com uma faca manchada de sangue na mão.
- Filho, o que você fez? – Disse Nilza desesperada correndo de encontro com o menino.
- Eu escutei ele gritando com você mamãe. Ele te machucou. Depois eu vi você cair e pensei que ele tinha matado você, então eu matei ele. Desculpa mamãe. – Vinicius começou a chorar e Nilza o abraçou forte.
- Venha meu filho. Temos que fugir.

Fim

1-chapa.: Trabalhador autônomo

Alguns detalhes interessantes que descobri enquanto escrevia esse texto.

A CADA 15 SEGUNDOS uma mulher é espancada. A cada nove segundos uma mulher é ofendida na conduta sexual. Também a cada nove segundos uma mulher é desmoralizada no trabalho doméstico ou remunerado. Mulheres negras têm mais chances de serem estupradas que as mulheres brancas.
A lei citada no texto é a Lei Maria da Penha. Ela foi sancionada pelo presidente da república no dia 07 de agosto de 2006, a lei é a 11.340/06.
Mais detalhes no site: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_maria_da_penha


por Jack Sawyer