O poço da vida eterna




Poço da vida eterna.
Por Jack Sawyer


O vento açoitava o rosto e minhas orelhas. Já estava a 1600 metros de altura naquela escalada quase vertical, esperando que tudo aquilo fosse verdade. Preparara-se tanto.
Tentava não olhar para baixo, mas era inevitável. A altura é muito maior vista de cima do que quando se está embaixo.
Tudo isso começou há um ano atrás, quando socorri uma vítima de atropelamento. Era um cigano. Uma camionete o havia acertado em cheio e o jogado de encontro a uma árvore.
Eu estava logo atrás com meu jipe, e vi quando o motorista da caminhonete foi embora sem prestar socorro.
O homem estava muito mal. Não ia sobreviver, mas em seus últimos instantes de agonia, se esvaindo em sangue por todos os lados, enfiou a mão dentro colete de couro que estava usando e tirou um pacote enrolado com uma fina tira de couro. Antes que eu esboçasse qualquer reação, ele me fez jurar que seguiria adiante, que seguiria o mapa e encontraria o poço. Quando finalmente concordei, para que ele não se esforçasse mais, ele virou para o lado e morreu.
Levei-o até o próximo vilarejo e contei o ocorrido, ninguém fez mais perguntas. Coloquei o mapa no porta luvas e segui viajem. Acabei esquecendo o assunto.
Algum tempo depois, quando estava limpando o carro e abri o porta luvas, cai no assoalho do jipe o “rolinho de couro”. Foi quando me recordei do cigano e aquele dia fatídico. Abri com cuidado e vi que era um mapa.
No plano central havia uma montanha, no alto um poço e envolta do mapa, vários desenhos indicativos que nada faziam sentido. Apenas um deles, eu havia visto no dia que socorri o cigano. Provavelmente ele também, e no descuido, foi atropelado.
Passei os últimos 11 meses pesquisando e treinando escalada, pois quanto mais eu pesquisava, mais ficava convencido que aquele mapa não era delírio de velho louco.
E hoje estou aqui. No alto dessa montanha, com os dedos em carne viva. Após uma pausa para tomar fôlego retomei a subida. Depois de 10 minutos de vários escorregões, cheguei a um pequeno espaço aberto e plano de uns quatro m2 e novamente a continuação da montanha. Na base tinha uma fenda com pouco menos de 50 centímetros de largura e um símbolo na entrada. Era um símbolo de entrada, estava meio desgastado pelo tempo, mas era o símbolo de entrada. Eu já sabia, já tinha decorado todos os símbolos do mapa. Ainda bem que não precisaria subir mais.
Tirei a lanterna e corda da mochila. Tentei olhar pela fenda, mas estava escuro demais. A escuridão parecia engolir a luz da lanterna. Amarrei a corda na mochila e a outra ponta em mim. Joguei a mochila pela fenda e logo em seguida passei. Dentro da caverna era mais espaçoso, andei um pouco pelo túnel aproveitando a claridade da entrada. Parecia mais uma mina abandonada escavada na rocha. Quando resolvi usar a lanterna, ela começou a piscar e dar sinais de bateria fraca, mal eu tinha usado a lanterna. Troquei as pilhas usadas por novas, mas sem resultado algum. Tentei ver pela luz do meu relógio, mas também não funcionava. Tirei um isqueiro do bolso e acendi, pelo menos isso funcionava. Tirei a bússola da mochila e fiquei surpreso porque ela girava sem parar, sem apontar uma direção. Pelo jeito, nada elétrico, eletrônico ou magnético funcionava ali. Consegui tirar um pedaço de escora da caverna, enrolei a ponta com uma meia e embebi com fluido de isqueiro. Pronto já tinha uma tocha improvisada.
Olhei o mapa novamente e esta última frase, até hoje, eu não conseguia entender. “Enxergarás com os ouvidos o que os olhos não podem ver”. Não sei se era um erro de tradução, não tinha sentido. Ali só tinha a rocha lisa e algumas escoras, mais nada. Sentei para comer e beber alguma coisa.
Enquanto estava comendo, ouvi um ruído, parei de mastigar e fiquei escutando. Novamente o ruído. Pareciam pequenas patas correndo pela parede. Peguei a tocha e fiquei observando. Nada. Mas o ruído ainda estava lá, arranhando a rocha, será que era isso que aquela ultima frase queria dizer? “Enxergarás com os ouvidos...”.
Encostei o ouvido na fria parede rochosa e fui seguindo toda a sua extensão. Logo à frente ouvi o ruído novamente, parecia estar vindo de trás da parede. Mas como? Ela era totalmente lisa, não havia rachaduras e nem emendas. Peguei o meu martelo de escalada e comecei a bater de leve na parede. Havia um ponto oco na rocha e um relevo. Aproximei a tocha para enxergar melhor e tinha o mesmo símbolo da entrada, mas não estava ali antes.
Pus-me a golpear a parede. Apesar do barulho de oco, ela era dura. Depois de vários golpes, abri um pequeno orifício. A partir daí fiquei empolgado, deixei o martelo no chão e comecei a bater com os ombros e com os pés. A alegria de ter encontrado aumentava a minha força e num rompante de energia derrubei a parede, caindo junto com ela, em meio à poeira e pedaços de rocha.
Acendi novamente a tocha e lá estava ele. O poço. Tal qual estava desenhado no mapa. Aproximei-me e olhei dentro. Parecia muito fundo.
Procurei uma pedra para calcular a distancia, mas... Não encontrei nenhuma. Havia tantas quando eu caí. A entrada deve ter mais na entrada. Mas... Onde está entrada? O buraco pelo qual eu passei, se fechou novamente. A parede estava lisa, como eu a havia encontrado. Meu martelo ficara do outro lado. Bati com a lanterna na beira do poço até conseguir tirar uma lasca. Já serviria para o que eu tinha em mente.
Joguei o fragmento e fiquei ouvindo. Havia água. Quase dei um grito de alegria. Agora, a questão era como tirar a água do poço. Com a tocha erguida olhei toda a extensão da caverna. Era bem grande, havia pegadas ali, seriam as minhas? Não sei dizer, estava tão eufórico.
Em uma fenda, cheia de areia e poeira, parecia ter um pedaço de corda. Olhando mais de perto, vi que era a alça de um balde. Um balde rústico e bem antigo, mas serviria para os meus propósitos.
Amarrei minha corda em volta do balde, para reforçar e quando ia jogá-lo no poço, algo passou entre os meus pés, olhei para baixo e vi um rato que tentava me morder. Chutei-o para o lado e ele voltava a me morder. Tentei chutá-lo novamente, não seria um rato que ficaria entre eu e o meu sonho. Desta vez, quando ele tentou me morder novamente, eu pisei nele com força.
Vocês devem estar pensando “mas que nojo”, mas ao invés de sair sangue e víceras, saíram molas e engrenagens. Era mecânico, mas parecia tão real.
Estava preste a jogar o balde, quando uma mão segurou meu ombro com força e me puxou. Aquela coisa era feita de pedra e resfolegava como uma locomotiva a vapor, tinha vários furos no corpo, mãos e cabeça, por onde saiam vapores.
Tentei empurrá-lo, mas ele não me soltava. Empurrei com mais força e ele caiu no chão. Voltei para o poço e atirei o balde na água. Puxei com cuidado e quando ia beber, aquela aberração de pedra, veio para cima de mim novamente. Estava decido a não me deixar tomar a água. Parecia uma espécie de guardião. Seus esforços eram para pegar o balde e não contra mim. Após alguns minutos se engalfinhando, acabei vencendo a peleja.
Levantei o balde segurando-o como se fosse uma taça, e tomei toda a água.
Olhei triunfante para o boneco de pedra, que neste momento, estava se levantando. Ficou de pé em minha frente, e sem qualquer aviso, se desfez em poeira.
Meus pés estavam ficando duros. Olhei para minhas mãos e acontecia a mesma coisa, com buracos por onde vazavam vapores. Eu estava me transformando na criatura que acabei de derrotar. Uma criatura de pedra.
Envolta do poço, havia uma inscrição. “Avise, cuidado com a ág...”. Não estava terminada.
É minha tarefa agora, avisar qualquer aventureiro que venha aqui. Nem que leve uma eternidade.

Fim

Comentários

Sandra Franzoso disse…
Que legal, Jack! Incrível!
Tayná disse…
Muito 10!

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