Svdar e a magia no natal

Svdar e a magia do Natal.
Por Jack Sawyer

“... Svdar olha para o vale, guarda seu machado de dois gumes em uma bainha pre-sa às costas, e vai embora montado em Vacum, seu grifo”.

Fim

- Ficou ótimo, Sawyer. Quando será a próxima aventura de Svdar? – pergunta Glau-co, o editor de Sawyer.
- Não sei chefe. Acho que vou dar uma parada. Dezoito livros em três anos é uma vi-da muito corrida. Acho que Svdar merece um descanso. Tenho uma casa no interior. Vou pra lá repousar um pouco.
- Mas é fim de ano. E as festas? Natal e ano novo?
- Desde de que Sophia...
- Sei, entendi. – completou Glauco, interrompendo-o. – Venha passar conosco. Acre-dito que Fátima ficaria feliz. Ter o famoso J.S. Sawyer sentado à nossa mesa para cear conosco, se sentiria honrada.
- Não vai dar Glauco. Eu nem gosto dessa época. Prefiro me recolher a um lugar calmo.
- Como quiser. Mas o convite fica em aberto. Se mudar de idéia, pode aparecer por lá.
- Obrigado pelo convite.
- Ah, já ia me esquecendo. Trouxe um vinho do porto para você, e esse foi difícil de encontrar, é uma safra especial, e como sei que você gosta... Considere como meu presente de Natal.
- Muito obrigado, vou saboreá-lo até a última gota.
- Até o ano que vem Sawyer.
- Até, Glauco.

oooOooo

Interior de São Paulo, estradas largas e quase todas retas. A rodovia cercada de fa-zendas de gado e pasto. Gado branquinho, que mais pareciam pedras de tão imó-veis que ficavam.
Há muito que J.S. Sawyer não sentia essa liberdade, todas as janelas abertas e o vento espalhando seu cabelo.
Sansão, seu cão de estimação, um Mastim Napolitano de 90 kg, também estava ado-rando. Colocava a cabeça para fora da janela e deixava o vento bater em sua cara.
Era um descanso merecido. Aquela pressão da cidade, barulho, poluição e ainda conseguia ser criativo. Imagine então em um ambiente inóspito?
Na verdade, a real finalidade desse retiro, era que ele queria dar um fim em seu per-sonagem. Não sabia de que forma. Não queria ficar preso no clichê “... e viveram fe-lizes para sempre”, a respeito do romance platônico entre Svdar e a princesa huma-na Zaphira.
Até que a união seria uma boa coisa. Svdar se tornaria rei de Medilan e senhor abso-luto dos bosques e das planícies. Mas não seria um reino tranqüilo. Haveria usurpa-dores. Outros guerreiros com a intenção de matar Svdar e desposar Zaphira. O que pediria uma continuação, ou então, seus descendentes, como acontece com as len-das de Arthur.
Não. Estava decidido. Svdar teria que morrer.
Já estava em uma estrada vicinal, longe da rodovia. As fazendas cada vez mais dis-tantes uma da outra, até que chega um ponto em que não há mais asfalto, só uma terra vermelha, a poeira levantando ao passar do carro.
Finalmente chega em sua propriedade. Uma aparência bem antiga, com um grande portão de ferro e murros enormes cercando a propriedade, quase todo coberto por vegetação.
Era uma moradia um tanto quanto grande, dois andares mais um sótão. A mobília estava toda coberta por lençóis para evitar a poeira e as teias de aranha.
Já era tarde. Acendeu a lareira para providenciar calor ambiente e o aquecimento da água. Apesar do clima quente durante o dia, aquela região era açoitada com ventos gélidos durante a noite. Subiu até o sótão, e da janela circular, via o ocaso.
Voltou para o segundo andar e encheu a banheira para um relaxante banho.

oooOooo

- Isso não é possível Svdar. – disse calmamente Nagael, o velho.
- Como não Nagael? Tu és um feiticeiro tão poderoso. Há de encontrares uma ma-neira para realizar meu intento.
- Veja bem, meu caro Svdar. Tu não podes decidir. Um humano guia teus passos.
- Não devo servidão a nenhum humano, somente à minha princesa Zaphira.
- Tu não passas de um personagem, Svdar. Um humano dita tuas ações. Teu desti-no depende de um humano. O que ele escreve é lei pra a tua vida. Tu não possuis o livre arbítrio.
- Me diga, Nagael, quem é esse humano, para que eu corte a sua cabeça e tome o meu direito de fazer o que quiser?
- Para isso – respondeu Nagael pacientemente – tu terás que ir para o mundo dos humanos.
Svdar ficou olhando para Nagael de forma ameaçadora.
- O que está esperando feiticeiro, abra-me um portal.
- Svdar – respondeu o velho com uma incrível paciência – posso abrir-te um portal para qualquer parte de vosso mundo, mas nada posso fazer, se for em outra dimen-são.
Silêncio.
- Há uma chance Svdar. – disse Nagael, meio relutante – Os humanos acreditam em um evento que eles chamam de Natal. Dizem que existe uma magia que envolve a noite que antecede este dia, ou seja, a véspera do Natal. Se esta energia mágica for tão forte quanto a minha, poderei abrir um portal para ti. Mas tu tens que ser rápido em tua empreita, pois posso manter o portal aberto no máximo 60 ciclos d’água.
- Como vou saber quanto tempo tenho depois que atravessar o portal?
- Os humanos medem o tempo com algo chamado relógio. Cada giro completo de uma seta grande desse relógio equivale a 15 ciclos d’água.
- E quando isso vai acontecer feiticeiro?
- Amanhã.
- Sabe muito dos humanos Nagael. já esteve lá?
- Meus antepassados me transmitiram esse conhecimento e, proferiram que um dia ele seria usado.

oooOooo

Depois de um relaxante banho, J.S. Sawyer, desce até o térreo e tira o lençol de ci-ma de sua antiga escrivaninha, coloca a sua máquina de escrever do lado e retira seu “notebook” da pasta, depositando-o no lugar da máquina de escrever. Vai até a cozinha e pega o vinho que havia ganhado e uma taça.
Seu cão, Sansão, latia com excesso. Achava engraçado. Fugira da agitação e do ba-rulho da cidade, e trouxera seu cão consigo. Mas tinha que ser assim. Era seu com-panheiro e não tinha com quem deixar. Mas estava ficando insuportável. Foi até uma das janelas e gritou para o jardim.
- Fique quieto Sansão!
Com um ganido de arrependimento, o cão para de latir. De onde estava, ele não po-dia vê-lo. Talvez estivesse agitado com a atmosfera assustadora que se apresentava lá fora. O céu estava coberto de nuvens escuras, uma procela se aproximava. Seria um natal chuvoso.
Voltou para a escrivaninha e começou a escrever sobre Svdar, o duende guerreiro.

oooOooo

Svdar aparece no jardim de J.S.Sawyer, após uma tempestuosa travessia. Ficava pensando se o retorno seria igualmente tenebroso.
Assim que aparece no jardim, mal anda alguns passos e se vê diante de uma fera assustadora. Rugia ameaçadoramente para ele. Era um animal estranho. Semelhan-te aos lobos de Medilan, mas muito maior. Tinha o pêlo cinza e o rabo cortado, gran-des dentes a mostra e babava muito. Em sua primeira investida, a fera errara o alvo e Svdar, habilmente rolara por baixo do animal. Quando a fera estava preste a atacar novamente, ouve uma voz vinda do estranho palácio. No momento em que a animá-lia se distrai, Svdar saca seu machado e num mesmo movimento, decepa a cabeça da besta que, ainda consegue emitir um ganido.
Corre pelo jardim até a varanda. Vira de qual janela o humano havia gritado.
Ao entrar na sala, vê o humano. Estava de costas para ele. Sentado em frente a uma maquina estranha, a qual batia repetidas vezes com as pontas dos dedos.
Svdar percebeu que seu próprio tamanho havia mudado em relação ao momento em que chegara. Tirou o machado da bainha e foi se aproximando para dar o golpe. Mas exitou. Que estranho feitiço protegia aquele humano, que era capaz de paralisar seus músculos? O humano também parou de bater na estranha máquina.
- O que está esperando Svdar? Termine com isso.
“Como era possível? Como poderia saber que estava ali? Como sabia seu nome?” eram tantas perguntas que giravam na cabeça de Svdar.
O humano volta a bater na máquina.
“Será esse humano, um feiticeiro mais poderoso que Nagael, a ponto de me paralisar sem mesmo proferir um encantamento?” continuava a pensar Svdar, que pela primei-ra vez na vida, fiar em dúvida em que fazer.
- Vamos Svdar. Falta pouco para meia noite. Se os ciclos se acabarem, você ficará preso em meu mundo. Para sempre.
- Como sabes de tudo isto humano? Por ventura és um bruxo?
Sawyer dá uma sonora gargalhada.
- Svdar, Svdar, meu caro guerreiro. Eu o criei. Criei Vacum, seu grifo, Zaphira sua amada. Mas nem tudo é invenção. Medilan existe, Nagael também. E você nada po-de fazer se eu não escrever.
- Mas não é cabível. Tudo é tão real.
- É porque o faço assim, através do que eu escrevo.
- Mas como sabe sobre Medilan?
- Nagael não lhe contou nada? É claro que não. Eu não escrevi isso. Ele é meu bisa-vô.
- Como assim? Você ainda é jovem e Nagael não é tão velho assim. – pergunta Sv-dar ainda indeciso.
- Certa vez, estava explorando as fronteiras de Medilan, e resolvi descansar perto de umas rochas. Na verdade era um portal entre as nossas dimensões. Apareci aqui neste jardim e não consegui voltar. Isso não pode ser feito nem pelos maiores magos de Medilan juntos. Mas na época do Natal, o lado de cá tem algo mágico e tudo é possível.
- Me estabeleci – continuou Sawyer – e observei que os humanos gostam muito de histórias. Mas aqui não tem contadores de histórias como em Medilan. Então resolvi escrever sobre a nossa terra natal. E acredite? Eles gostaram. Casei-me e me trans-formei em um escritor famoso, graças a você Svdar. Os leitores querem sempre mais. Eu me dedicava o tempo todo a você e às suas aventuras, como um bardo canta as peripécias dos cavaleiros medievais. Tanto que minha esposa acabou me deixando porque eu não tinha tempo para ela. Ela nada sabia de onde eu vinha. Era difícil ela compreender a saudade que eu tinha de Medilan. Que a única forma de eu lembrar era escrevendo. Então todo ano, no dia 24 eu venho para cá na esperança de ver o portal novamente.
- Deseja retornar para Medilan?
- Não mais. O tempo aqui é diferente de lá. Se eu retornar, não chegarei vivo. Como pode ver, conforme o tempo passa, vamos adquirindo o tamanho natural dos huma-nos. Veja você. Está quase da minha altura. Mas ainda há tempo para você. Então decida o que pretende fazer. Independente da decisão que você tomar, eu o perdôo. Eu não tinha o direito de fazer o que fiz com você.
- Eu vim para matá-lo. Mas agora não sei mais. O que acontecerá se você morrer?
- Você ficará aqui, nunca mais verá Zaphira e toda Medilan nunca saberá que você existiu. Você será varrido da memória de todos como poeira ao vento. Toda a sua e-xistência, conquistas desaparecerá.
- Pelo o que entendi, eu sou o que sou, graças a você, e alem do mais, não tenho o poder de decidir.
- Considere-se livre dessa obrigação. Dou-lhe o livre arbítrio.
Neste instante, Svdar solta o machado, que cai no assoalho de madeira.
- O tempo está passando Svdar. O que vai fazer?
- Retornarei para Medilan. Também o perdôo.
- Obrigado Svdar. Pelo jeito, o que escrevi sobre o seu caráter, é verdadeiro.
- Humano...
- Me chame de Sawyer. – completou o escritor.
- Sawyer? Podes engendrar para que eu finalmente fique com minha amada Zaphi-ra?
- Considere seu pedido realizado. Em sua próxima aventura, conquistará a mão de Zaphira.
- Adeus humano. Adeus... Sawyer.
Svdar partiu correndo para o jardim. Uma luz azulada, próxima ao muro, ia diminuin-do de tamanho gradativamente. Perto do portal, lembrou de seu machado, mas não havia tempo para voltar e recuperá-lo. Mergulhou no portal, que se fechou em segui-da e disparou para o céu, emitindo um feixe de luz como um relâmpago, furando as nuvens escuras e dispersando-as, tornando o céu limpo e estrelado.
“Será esse mesmo raio de luz, que os três reis magos viram a mais de dois mil a-nos?” pensou Sawyer.

oooOooo

J.S.Sawyer acorda assustado, com marcas do teclado no rosto. O vinho estava pela metade. Já estava quase amanhecendo. Era manha de Natal. Será que havia so-nhado com tudo aquilo? Isto daria uma bela história.
Ele levanta da cadeira meio sonolento, se espreguiçando e tropeça em algo. Quando olha para traz para descobrir o motivo de sua queda, vê um pequeno machado de dois gumes espetado no assoalho.


Fim

Comentários

Realmente adorei, obrigada.
Beijos
Rita
Charlie disse…
Cara Jack Sawyer,

Muito bom o conto. Gostei muito. Parabéns,

Grande abraço,

Andy

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