A estrada

Já estava entardecendo quando eu retornava para casa.
O sol já ia sumindo no horizonte, mas a estrada que eu estava, já havia escurecido. Envolto em árvores e montanhas só dava pra ver o céu avermelhado, anunciando que o dia seguinte seria de muito sol e calor.
Vez ou outra eu fazia este trajeto. Não gostava muito. Era muito perigosa muita curva e a estrada quase sem acostamento.
A vermelhidão do céu logo desapareceu dando lugar a uma escuridão sem lua e, por incrível que pareça, estava começando a esfriar.
A estrada estava deserta, tinha pouco movimento ali. Pouca gente se aventurava por essa estrada, devido ao alto índice de acidentes.
Em uma das poucas retas que tinha, vi uma moça ao longe, parecia perdida. Quando me aproximei mais, fez sinal com o polegar para trás, pedindo carona.
A gente ouve tantos casos de assalto que fica com medo de ser solidário.
Ela trajava um vestido sem mangas que ia um pouco abaixo dos joelhos, um tecido fino e branco, nada extravagante. Era branca e tinha feição suave e triste. Tinha cabelos loiros e amarrados num rabo de cavalo. Fiquei num dilema: paro ou não paro?
Passei por ela e me deu um arrependimento. Coitada, deveria estar com frio e num lugar que não passa ninguém.
Parei a uns cem metros depois. Fiquei olhando se não saía ninguém do matagal, ainda com a suspeita de assalto.
Ela se aproximou lentamente do lado do passageiro. Tinha um rosto cativante, apesar de triste.
- Olá? Boa noite?
Ela não respondeu, apenas ficou me olhando.
- Pra onde você vai moça? – perguntei novamente.
Ela fez sinal para frente. Era óbvio.
- Entra aí então. Deve estar frio aí fora.
Ela entra calmamente, sentou-se e ficou olhando para frente. Dei partida e prossegui. Agora o trecho era uma curva após a outra. Tentei várias vezes puxar conversa com ela, mas, pelo jeito ela não era de falar muito.
Após uns vinte minutos rodando, ela disse:
- Eu fico aqui.
Já ia soltando a trava e abrindo a porta com o carro ainda em movimento. Fui forçado a fazer uma manobra e parar o carro numa curva, quando olhei para o lado ela tinha sumido. Desci do carro e fiquei procurando em volta, ela não poderia ter ido longe. De repente comecei a ouvir um choro de criança, bem fraquinho. Concentrei-me no choro. Vinha de baixo, o terreno na beira da estrada era muito inclinado. Fui andando até ter uma posição da onde vinha o choro. Consegui ver duas luzes vermelhas lá embaixo. Desci até poder visualizar o contorno de um carro e o choro mais audível. Enquanto descia liguei para o resgate e informei o ocorrido, disse também que tinha uma vítima com vida, possivelmente uma criança e eles me orientaram a acalmá-la que o socorro estaria a caminho.
Fiquei por perto conversando com a menina e ela só gritava “salve minha mãe, salve minha mãe” mas não dava pra ver nada, era um breu só. Eu tinha uma lanterna no carro, mas toda vez que eu parava de conversar com a menina ela começava a gritar.
Enquanto a criança se acalmava, ouvi aos poucos a sirene do resgate e lá de baixo já dava pra ver o brilho do giroflex na noite escura. Logo o local estava todo iluminado e eles me pediram para me afastar. Voltei pro carro e fiquei aguardando o desfecho desse começo de noite estranho.
O pessoal do resgate vinha subindo com duas macas, uma estava coberta. Perguntei da garotinha e eles me informaram que estava tudo bem, apenas alguns hematomas. Pedi pra vê-la e eles me levaram até ela.
Era uma garota muito bonita e ela sorriu pra mim quando reconheceu minha voz. O rosto dela era muito parecido com... com a moça que eu dei carona. Pedi pra ver a outra maca e... era ela. O rosto estava todo ensangüentado e a roupa toda manchada de sangue, mas era ela mesma. Era o mesmo vestido branco sem mangas. Fiquei ali olhando o pessoal do resgate colocando as duas macas na viatura e me agradecendo, dizendo que se eu não acionasse o resgate possivelmente a criança não sobreviveria. Do outro lado da pista vi a moça novamente. Ela acenava pra mim me dando um suave adeus. Ameacei ir ao seu encontro, mas ela fez sinal pra que eu parasse e foi sumindo, até desaparecer completamente.
Entrei no meu carro, liguei o rádio e segui viagem.
Meu nome? Que indiscrição a minha. Uma tremenda falta de educação. Muito prazer, meu nome é Paulo.

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Espelho...

Comentários

Sandra Franzoso disse…
Adoro esse tipo de conto, na época em que o Fantástico contava essas histórias, vi uma muito parecida com essa, um casal de velhinhos salvou uma criança.
É de arrepiar, mas acredito que acontece mesmo.

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